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Clínica de Psicologia na Amadora quer desatar nós com a ajuda dos cães

A partir de abril, os pacientes vão poder levar os animais para este espaço. Psicóloga pretende promover ainda as adoções responsáveis.

Lucas e Moana são os primeiros a vir à porta. São 'rodinhas baixas', mas ladram como leões, para defender a tutora. Lucas tem oito anos, Moana, a princesa, tem cinco e são os cães de Cláudia Ferreira, 52 anos, mestre em Psicologia Clínica e Pós-Graduada em Avaliação Psicológica.

Os dois patudos já se acalmaram. Cheiraram a visita estranha de alto a baixo. "Tem cães?", pergunta Cláudia. Dois. Lucas e Moana já sabiam a resposta, mesmo antes de ela ter sido dada. O exame olfativo está feito. "É amigo". Acalmam e deitam-se nas suas camas.

Estamos na Clínica Desatar Nós, criada a 1 de junho de 2023, por Cláudia Ferreira, na Falagueira, Amadora. E o que fazem dois cães no psicólogo? Estes, em concreto, nada. "Vieram acompanhar a dona, porque eu hoje bloqueei a minha agenda de consultas para o receber", conta à New in Amadora.

Mas o amor que a profissional tem aos animas deu-lhe uma ideia — em rigor, duas — que vai colocar em prática em breve. "Há muitas pessoas solitárias e muitas delas não têm tido muita sorte nas suas relações. Recebo cada vez mais pacientes deste tipo em contexto de consulta", conta a psicóloga, que é "casada, feliz, com dois filhos e dois cães".

"O amor que tenho aos meus cães, que está noutra parte do coração, preenche-me de tal forma, faz-me tão feliz, tão feliz, que não tenho qualquer dúvida de que a minha vida ficou muito melhor desde que tenho estes dois filhotes: o Lucas e a Moana", conta, entusiasmada.

É partindo deste binómio — a capacidade que os cães têm de nos fazer felizes e a existência de um número crescente de pessoas em situação de isolamento, de tristeza e ansiedade — que Cláudia desenhou dois projetos, que vêm acrescentar valências às muitas que o espaço já disponibiliza aos seus utentes.

"O que é que os cães nos transmitem?"

O primeiro, a aplicar já no primeiro ou segundo sábado de abril, é a possibilidade de os pacientes poderem levar os seus cães às suas próprias consultas. "Será só ao sábado para não atrapalhar o normal funcionamento do centro e dos meus colegas", esclarece.

"Teremos aqui uma sessão com momentos terapêuticos guiados por mim, de autoconhecimento, de elevação de autoestima, de as pessoas perceberem o que é que os cães nos transmitem. 'Porque é que o meu cão está tão agitado? Porque provavelmente, eu estou agitada'. 'Porque é que ele está aqui calmíssimo, a dormir no sofá, porque percebeu que eu estou serena'", prossegue a responsável clínica.

Cláudia Ferreira acredita que os animais podem ser "ótimos desbloqueadores de emoções". E é por isso que a psicóloga quer ainda fazer um match entre os seus pacientes solitários, "que estão circunstancialmente sozinhos — ou porque terminaram uma relação, ou porque ficaram viúvos —, mas que têm muito amor para dar", e cães disponíveis para adoção no centro de recolha oficial da Amadora (CROAMA) ou da única associação que acolhe cães no concelho, a Amiama, cuja história a NitAmadora contou na semana passada.

Esse é o segundo projeto, a que a proprietária da clínica Desatar Nós deu o nome de "Desatar Nós com Patas". "Enquanto o primeiro projeto só depende de mim e vou arrancar com ele já em abril, o outro não depende só de mim, mas acredito que é possível concretizá-lo até ao verão.

"Já enviei um email com o projeto todo explicado, quer para o vereador com a responsabilidade do bem-estar animal da Câmara da Amadora, quer para a Amiama, e agora estou à espera de respostas", afirma esperançosa a psicóloga.

"O verão é uma altura em que, historicamente, o número de animais abandonados cresce tristemente". "Do ponto de vista clínico, está mais do que provado que o convívio entre cães e pessoas em condições de vulnerabilidade, de ansiedade e de tristeza trazem benefícios muito claros para os pacientes, e naturalmente, para os animais, que passam a ter quem lhes dê amor e proteção", explica à New in Amadora.

O processo de adoção responsável passará por várias fases, mas tudo começa em consultório. "O primeiro passo é estabelecer dinâmicas criadas por mim, enquanto psicóloga, de emoções, de autoconhecimento, de soltar as emoções, com o apoio de um cão de uma dessas instituições, que estará presente na consulta".

Cláudia Ferreira acredita que, em muitos casos, haverá "um encantamento entre o paciente e o animal", que se confirmaria (ou não) numa segunda e terceira sessão, até se perceber que, sim senhor, aquela pessoa estava em condições e feliz por poder dar amor aquele animal".

Espaço "inclusivo e seguro" para a comunidade LGBTQ+

Não foi por acaso que a Clínica Desatar Nós abriu no Dia da Criança. "Na minha vida nada foi por acaso", diz Cláudia, com uma gargalhada expressiva. "É o meu dia de sorte: foi o dia em que nasci, em que entrei para a universidade, em que comprei a minha primeira casa, em que o meu marido e filhos nasceram". De facto, convém não desafiar a sorte.

Nestes quase dois anos, a clínica "cresceu muito". "No início era somente eu, que sou a proprietária, e tinha comigo aqui a psiquiatra Dra. Catarina Ferreira e a nutricionista Dra. Rafaela Melo, mas neste momento já somos uma equipa multidisciplinar de nove profissionais".

Transtornos de ansiedade, depressão, questões de identidade de género, aconselhamento de adultos e adolescentes, compreensão das emoções das crianças, entender os desafios do crescimento e desenvolver estratégias para lidar com esses desafios, resolução de conflitos de casal, comunicação, diálogo em família, psiquiatria, kid coaching e parentalidade positiva e nutrição são as especialidades disponibilizadas pela clínica.

Cláudia Ferreira faz questão de reforçar que a sua clínica "destaca-se pelo ambiente acolhedor e inclusivo, dispondo de condições acessíveis e adequadas para todas as identidades de género, garantindo um espaço seguro para a comunidade LGBTQ+".

Homenagem à avó que fazia rissóis

A psicóloga clínica perdeu a única avó que conheceu aos 13 anos. Mas a avó Antónia, que morreu de leucemia, continua viva para Cláudia nas mais pequenas coisas.

"Numa noite em que eu ajudava o meu filho a desatar os atacadores dos ténis, disse-lhe, quase sem querer, uma frase que aprendi com a minha avó, em pequena: "Se pensares no teu verdadeiro amor, como por magia, todos os nós se irão desatar". Lembrei-me que o nome Desatar Nós, pode ser transversal à memória da minha avó e ao que faço nos acompanhamentos de psicologia, pois desato alguns diariamente (traumas, decisões, escolhas, dificuldades)". E assim nasceu o nome do seu projeto profissional.

Cláudia Ferreira baixa o tom de voz. Por momentos, a alegria contagiante com que comunica dá lugar a nostalgia. Não é tristeza, é apenas uma contemplação, como se olhasse fixamente para o passado.

"Adorava ir para a casa dela, em Tomar. Cheirava sempre a comida, porque ela fazia rissóis para as escolas de Tomar e viveu muitas dificuldades, teve de se reinventar várias vezes", recorda à NitAmadora. E sem se deter, continua a viagem. É como se, de repente, habituada a perguntar, com um caderno na mão, os papéis se invertessem.

"Passávamos muito tempo a falar, aprendi a costurar, tricotar, bordar e cozinhar. Contou-me sobre o facto de o grande amor da sua vida ter sido um poeta, li um poema que ainda tinha guardado e como a sua morte prematura a deixou numa tristeza profunda".

"Contou-me sobre a sua ida de Portalegre para Tomar, como conheceu o meu avô António, que foi de Chaves para Tomar, como teve quatro filhas e uma faleceu à nascença", lembra, acrescentando que a avó Antónia "era uma mulher muito bonita".

"Pedia-me para lhe pintar as unhas e colocar batom e eu adorava vê-la assim. Os abracinhos dela eram amor puro, e, por isso, foi ela que me inspirou a ser a mulher que sou hoje".

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Nuno Azinheira - NIT Amadora

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